Do hobbie à profissão: a trajetória de Mariela para conquistar o espaço nas oficinas

Mariela Marques Dias é uma reparadora especializada em carros franceses, ela é uma mulher casca grossa e decidida

Na zona leste de São Paulo, há uma oficina, instalada em um grande galpão no bairro da Água Rasa, esteticamente ela é idêntica a qualquer outra, chão sujo, alguns carros desmontados em cima de elevadores e música alta. Mas alguns elementos são peculiares, estranhamente apenas carros franceses se encontram dentro da garagem (exceto por um Jaguar e um Mitsubishi), nós estamos no Möbius, um centro automotivo especializado em franceses.

Um lugar onde todos os mecânicos são homens e em um rádio no canto da oficina, que está sempre reproduzindo rock, quase uma oficina clichê, até começar a tocar a música Cherry Bomb, da banda americana The Runaways, uma coincidência que anunciava a chegada da chefe da oficina, Mariela Marques Dias, de 30 anos. 

Loira, olhos claros e baixinha, a mecânica é uma mulher simpática que se autodenomina como casca grossa. Era possível notar que ela tem pulso firme, mas sem deixar a feminilidade ficar fora de cena.

Tudo começou quando Mariela ainda era criança, época a qual andava de mobilete com os meninos da rua e começava a se apaixonar pelos automotores. “Quando eu era pequena já gostava muito de motos e de motores. Gostava muito do pessoal e dos meninos da rua, a gente se juntava para andar de mobilete e foi assim comecei a gostar dessa área.”

No período da adolescência, Mari começou a trabalhar como recepcionista e seu, até então, namorado virou vendedor. Juntos, eles compraram um carro da Citroën, mas no momento da manutenção não encontraram ninguém apto para cuidar da suspensão.

“Tínhamos muita dificuldade de achar alguém hábil para mexer nessa suspensão, foi aí que nós procuramos aprender, buscar informações e tudo mais. Nessas idas e vindas, fizemos muitos amigos e também para conhecemos nosso professor, o Vilson, que deixou muita coisa para gente. Assim, nós, eu e meu marido, começamos a fazer o serviço em casa, como hobbie.”

De boca em boca, de mensagem em mensagem, o que era para ser um passatempo de fim de semana, se tornou algo maior do que eles esperaram. A garagem que tinha espaço para um único carro, já não era mais suficiente.

“Eu brinco dizendo que nós começamos bem pequeno, só com uma chave de fenda, e foi isso mesmo. A gente foi crescendo, crescendo e crescendo, tinha só uma vaga, tiramos o jardim e fizemos mais três, de repente a gente teve que ir para um galpão mesmo, porque estava dando muito trabalho para atender todo mundo.”

“Tanto homem tentou e foi uma mulher para resolver”

Os carros da Citröens são pesadelos para alguns, para Mariela, que é dona de quatro, são importantes para sua história. “Se não fosse essa suspensão e essa engenharia, acho que talvez nem tivesse começado, se não tivesse comprado um Citroën a gente não teria começado tudo isso.”

A especialidade da Möbius são os franceses, mas não é só com eles que a oficina trabalha. Um Jaguar E Type dos anos 60 tomava um espaço considerável dentro do centro automotivo, sem medo de se sujar, Mariela move o pesado motor V12 do automóvel com facilidade.

Quem olha para sua estatura e seu rosto delicado pode até subestimar, mas ela não deixa barato. “Para mim era indiferente, para mim eu estava indo ali fazer meu serviço e para fazer bem feito. Se o cliente achava ruim uma mulher prestar serviço, para ir para mim… nem ligo. Eu estava indo ali só para fazer o trabalho bem feito.”

Ela conta que hoje não sofre preconceito, mas no começo sentia que as pessoas não confiavam muito nela. Após uma conversa técnica, geralmente os clientes ficam mais calmos, mas ela conta que nem sempre é assim, às vezes ela tem que mostrar serviço.

“Uma vez um chegou um Xantia, ele tem uma dosadora de freio com vários caminhos de 8 e 9 mm e alguém mexeu ali e inverteram tudo, fizeram uma bagunça. O cliente levou para minha oficina resolver, primeiro ele olhou e disse: ‘vocês vão resolver mesmo?’ Foi um negócio meio punk, porque tive que seguir cada caninho e isso demorou um pouquinho. O cliente ficou meio receoso, ele dizia ‘você é uma menina’, eu tinha 19 e 20 anos na época, mas ele deixou o carro. Passou uns três ou quatro dias, eu liguei para ele e falei que o carro estava funcionando, ele disse: ‘nunca imaginei que eu ia ver uma menina resolver o problema do carro, tanto homem tentou e foi uma mulher para resolver.’”

Momentos como esse, ou quando ela consertou um Xantia que pegou fogo, são os mais prazerosos para Mari. É onde ela consegue enxergar seu trabalho sendo reconhecido, pois, segundo ela, são poucas vezes que isso acontece.

“O lugar delas só elas tem jeito de dizer onde é, mais ninguém.”

Mariela é uma mulher determinada, admite ser durona demais, principalmente no trabalho, pois quer que tudo seja feito com perfeição. “O pessoal fala que eu sou meio casca grossa, mas tem que ser. Acho que se você quer oferecer o melhor para o seu cliente, você tem que ter um negócio bem legal, bem concentrado, bem organizado e bem feito.”

A reparadora defende que todas as garotas devem fugir dos estereótipos femininos e correr atrás do que lhe faz bem. “Se é o sonho delas, se é o que elas querem, elas vão ser felizes fazendo isso, então vão atrás, porque a vida é uma só.”

Ela admite que atualmente a sociedade condiciona a mulher a realizar tarefas pré-impostas. “A menina nasce e o que ganha? O primeiro brinquedo uma mulher é um bebê! Ela já é condicionada a ter aquele instinto de cuidar da família e cuidar da casa. Muitas meninas são repreendidas para pela própria sociedade, você não pode fazer isso, você não pode fazer aquilo. Acho que as meninas têm que sim correr atrás o que elas querem fazer, porque o lugar delas só elas tem jeito de dizer onde é, mais ninguém.”

Um dos sonhos de Mariela é ensinar e instruir mulheres no mundo da mecânica, ela defende que saber o básico é o suficiente para não ser enganadas, mas ela teme que não haja público. “A sociedade tenta impor o lugar da mulher, isso ia diminuir a demanda.”

Em um tom de desabafo ela finaliza: “mas é aquele negócio né? Você tem que ser você, se for atrás do que a sociedade te impõe, você não vai ser feliz nunca, né? Porque é padrão de beleza, padrão comportamental e até padrão de trabalho. Tem que se ver feliz, ir atrás do que te faz feliz e é o que eu acho que tem que fazer”.

Leia Mais
Christian Fittipaldi: definitivamente um grande piloto brasileiro