Especialidade: esportivos e luxuosos

Jurandir, da Motor Classic, se especializou nos luxuosos e esportivos.

Motor Classic é uma oficina mecânica que só trabalha com carros luxuosos e esportivos. Localizada na Cidade das Monções, bairro da zona sul de São Paulo, ela é chefiada pelo Jurandir Ferreira, de 42 anos. Foi ele quem nos recebeu para compartilhar as experiências de mais de 26 anos de profissão.

Jurandir Ferreira

Como você aprendeu o oficio?

Cara, a primeira coisa foi gostar, né? Comecei quando eu tinha uns 16 anos e com o tempo fui pegando a prática. Fiz um cursinho no SENAI em 95. Foi um curso básico, mas na verdade eu aprendi na prática mesmo.

O que você mais gosta na profissão? Qual é a parte do trabalho que prefere?

Existem várias categorias de mecânico. Tem mecânico de suspensão, de câmbio, mecânico de motor, de freio, de autocenter. Eu sou generalista, tenho um conhecimento de tudo um pouco, mas o meu forte mesmo é o motor.

Entre os motores, onde é sua área de atuação, o que mais gosta de fazer?

Como eu disse: conforme o tempo passa, a gente vai pegando experiência. No começo foi uma maravilha. Todo novato, quando começa na área, sente uma satisfação de receber um motor, tipo: “pô, esse é meu primeiro, legal”. Conforme o tempo passa, nada mais é novidade.

Tem algum trabalho que guarda na memória?

Foi um motor Nissan GTR, eu mexo bastante em carros esportivos. 

Como é lidar com os esportivos?

É o atrativo daqui. A gente mexe bastante em motor preparado e esportivo. Mas em si, eles têm tudo a mesma base: a parte de dentro, pistão, biela, comando, cabeçote, turbina todos os carros já vêm com essa base.
Tanto o nacional quanto o importado já vêm preparados com turbo, mas isso vem lá de trás e hoje já faz parte até dos carros populares. O neoturbo para mim é tudo igual. Mas existe uma diferença entre carro alemão, carro japonês, carro brasileiro, carro americano: eles seguem um padrão próprio de montagem, então sempre tem que ter aquele quebra-cabeça que você acaba descobrindo alguma coisa.

Qual a diferença entre eles e os carros mais populares?

Com um carro preparado a diferença é brusca. Hoje, os carros como Fórmula 1, que são carros que servem para teste, geram matéria-prima para produção em outros modelos. Então, os carros, hoje, trazem uma grande tecnologia, principalmente o carro alemão. Eles trazem um pacote muito bom de tecnologia, mas em si é muito sensível. Os chineses ou os japoneses estão um pouco ultrapassados, em questão de tecnologia, porém são mais duradores, eles não são os mais avançados, mas são mais duradouros.

Hoje existe muito essa pauta de carros elétricos. Como você enxerga esse mercado daqui para frente?

Eu já venho das antigas, comecei com carburador, isso em 90. Nos anos 97 e 98 saiu o Gol GTI que foi injeção eletrônica e hoje em dia já é a injeção direta, um sistema que já é antigo, usado no diesel, mas ele foi preparado para gasolina.
O elétrico é uma coisa que vai revolucionar, veio para isso. Já existem híbridos andando por aí, o Toyota tem o Prius há um bom tempo, tem até Golf andando na rua 100% elétrico. 100% elétrico tem o BMW, mas cara eles estão preocupados mais no meio-ambiente, porém bateria pode poluir  também. Eu não sei como eles vão fazer isso. O combustível fóssil polui o ar, a bateria vai ser o solo, por que não tem como diluir ela, então ela tem que ser retornável. 
Eu acho que no Brasil é uma coisa muito cara ainda, vai demorar para se encaixar e se enquadrar no nosso mecanismo, por que um carro elétrico tem a duração de uma bateria de 20 anos, que é o preço do carro. Não sei como que vai ser o mercado, porque ninguém vai querer comprar um carro que tem que trocar a bateria. Sem a bateria você não anda com o carro e se você for trocar a bateria você paga o preço do carro, então no Brasil não se encaixa muito não, no meu ponto de vista. 
Vai ser tudo elétrico, vai ser tudo automatizado, o elétrico veio para revolucionar. Agora, vai depender do tempo. Não dá para dizer como vai ser, mas meu ponto de vista é esse, vai ser bom, faz parte do futuro, mas tem muitas coisas que precisam ser estudadas, ainda.

Falamos de futuro, agora vamos falar um pouco de passado. Opinião sua, um carro antigo ou um carro moderno?

Se você tem grana é sempre bom você ter um atrativo, uma moto, um carro, um navio, um avião, um helicóptero e assim vai. Por ser das antigas eu gostaria de ter um Fusquinha, que é o conceito de qualquer mecânico. Eu gosto mais é de Chevrolet, o Camaro antigo, o carro antigo está na raiz. Aqui é cheiro de gasolina e mão suja de óleo.

Você gosta de motos?

Eu adoro motos, sempre conheci motos. Eu vim da parte de bicicletas, depois mobilete, motos dois tempos, que eram mais acessíveis ao público e depois fui para a quatro tempos, que é a Honda. Estou até hoje com motos.

Como você vê o mercado de mecânica hoje?

Igual sempre eu falo: “Brasil dá, mas só que depois ele toma”. Muita gente das antigas, competentes e formados na área, as empresas demitem e pegaram a maioria dos novatos. Eles saem bem mais em conta, né?
Hoje manter um mecânico profissional, com um conhecimento na área, custa uns 5 mil e se contratar um “rapazinho”, você o contrata por uns 2 mil reais, que seja. Fica complicado.

E no futuro? Como você acha que vai estar o mercado?

O futuro cara? Você precisa ter o conhecimento das antigas, o carburador, a injeção e depois o elétrico. Para frente eu acredito que vai mudar todo esse negócio de bateria, a mecânica vai mudar muita coisa. 
Como eu disse lá no começo, não existe só mecânico de motor, câmbio etc., então vai exigir mais mecânicos da parte elétrica, por que os carros elétricos exigem um conhecimento específico, ai que tá o mecânico vai ter que se profissionalizar nisso.

Os elétricos esportivos têm espaços no mercado? Ou quem gosta de esportivo prefere o cheiro de gasolina?

Quem é das antigas vai preferir o cheiro da gasolina, a mão suja de óleo, ouvir o ronco do motor né. Mas o elétrico como esportivo, espero não estar vivo para ter esse gostinho que vai ser muito difícil engolir.  Um carro que você sonha que entre pela garagem para você trabalhar nele.
Aqui a gente já mexeu em tudo qualquer tipo de carro, tanto quanto Lamborghini, McLaren, Ferrari, Jeep, Mustangs, Nissan GTR e muitos outros. Mas existem aqueles carros exclusivos, aqueles fabricados em um número limitado, uma ou duas unidades que nem vem para o Brasil. Esses são mais interessantes.


Se você pudesse ter qualquer carro, qual seria?

Eu teria o Nissan GTR, eu já desmontei esse carro de cabo a rabo, ele é um carro esportivo bem mais em conta do que uma Ferrai ou uma Lamborghini. Ele é atrativo para mim por causa do meu conhecimento, algo que só um mecânico vai entender. Cara é uma mecânica tão simples e pelo que ele oferece, não tem o que falar.

Existe algum carro que você não gosta de trabalhar?

Existe. Aqui a gente tem um Hummer H1 militar que é ruim de mexer, aqueles carros antigos, como o Citroën XM, que possui um sistema todo hidráulico, mas por conta do meu profissionalismo é tudo tranquilo.

Para finalizar, você tem algo para falar para os novos mecânicos que estão chegando?

Para o público novo, apesar de não ser tão velho, eu tenho uma experiência boa. Eu comecei do nada e hoje eu mexo desde o Fusca até uma Ferrari, e para quem está começando hoje é bom prestar atenção, não se distrair com celulares e focar no que você gosta, isso não é só para os mecânicos, mas para todas as profissões.

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